quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

REPORTAGEM ESPECIAL: 'Funk ainda sofre com estereótipo da favela e do racismo', alerta sociólogo

Osmar Dantas
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Lilian Lila
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Tiago de Andrade
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Socióligo Márcio Serafim é estudioso
de cultura brasileira. Foto: arquivo pessoal
Durante uma época o rock foi considerado o estilo musical mais polêmico. Muito se comentava sobre os efeitos que a música causava, principalmente nos jovens, e sofreu muito preconceito. 

Atualmente, o funk também tem causado polêmica. Assim como o rock, é alvo de críticas e preocupa sobre os efeitos que as letras, consideradas inapropriadas por falarem de sexo e por supostamente fazerem apologia ao crime, causando desconforto em parte da sociedade. Esse tipo de comportamento fez que com muito fosse questionado sobre o estilo, o tornando um objeto de estudos.

Muito se discute sobre a mensagem que o funk quer verdadeiramente passar e os limites sobre como a vida nas comunidades e o sexo são retratados nas músicas. O estilo se desenvolveu mais no Rio de Janeiro, sendo constantemente associado à região e falando em muitas músicas como é a vida nas comunidades cariocas, do ponto de vista de quem vive nas favelas.

O sociólogo Márcio Serafim fala sobre o preconceito que tanto o funk quanto o samba sofrem. De acordo com ele, os dois estilos sofrem discriminação em seu aparecimento, mas isso não impede que sejam fortes o suficiente para apresentarem um papel importante de reconstrução da identidade cultural. 

Uma vez que o funk não tem uma época específica do ano para aparecer, como o samba para o Carnaval, a discriminação acontece constantemente. Muitas pessoas acham que o funk não é nada mais do que pura apologia ao tráfico, drogas e prostituição, não se preocupando em posicionar historicamente o estilo na sociedade.

Blog Funk In Rio: Podemos observar nos últimos anos a expansão do funk carioca em nível nacional, na sua percepção, o funk tem influência na sociedade atualmente? Que tipo de influência?
Serafim: O movimento funk no Brasil adquiriu uma expressão peculiar no Rio de Janeiro. Passou a ser uma nova forma de expressão da cultura popular urbana com ênfase nas favelas cariocas. Passou a dividir espaço no imaginário das favelas com o samba. Neste aspecto, parece interessante uma semelhança quanto à discriminação que ambos sofreram em seu aparecimento. Tanto o samba como o funk sofrem o estereótipo da favela e do racismo. Mas, isso não impede que ambos adquiram papel importante na reconstrução da identidade cultural da favela.

Blog Funk In Rio: Na sociedade atual é perceptível a liberação sexual, o empobrecimento cultural e a perda de valores éticos e morais. Neste momento que vivemos, é possível apontar essa difusão do funk erótico e de apologia ao crime como um dos culpados?
Serafim: A suposta crise ética e moral são resultados de um processo mais complexo, que nos remete a precarizações das condições materiais de existência para as classes populares, à corrupção em altos escalões políticos, na fragilização dos processos de socialização primária na família, no empobrecimento e sobrecarga da socialização secundária nas escolas, etc. Uma sociedade desesperançada e sem rumo, pautada em prazeres efêmeros e fáceis como forma de alívio individual e imediato. Este seria nosso quadro social mais pessimista. O Funk, como qualquer outra forma de expressão cultural, retrata essa realidade pervertida. Ele o faz de forma direta e clara. Isso causa repulsa àqueles que superficialmente o julgam. Ele não é o responsável pela degradação, mas pode refleti-la de modo chocante. Mas, vale lembrar que o Funk também produz crítica e diversão como forma de visibilizar as angústias sociais que atingem as parcelas menos favorecidas da população.

Blog Funk In Rio: O funk pode ser denominado um movimento cultural que faz a ligação entre o morro e o asfalto?
Serafim: Sem dúvida, o movimento funk é expressão da nova cultura popular urbana. Entretanto, também pode ser absorvido pela indústria cultural, que pode utilizar o seu viés mais erótico e acrítico como produto de consumo alienante.

Blog Funk In Rio: Na sua percepção, o que pode destacar como positivo e um ponto negativo na relação funk e sociedade?
Serafim: Não gosto muito de interpretar manifestações culturais e  sociais nestes termos manequeístas ocidentais. Normalmente nos conduz a interpretações simplistas de questões complexas. Mas, parece-me que, assim como todo processo socio-cultural, o funk merece ser melhor compreendido e debatido em espaços públicos. É importante que se dê visibilidade e voz para os atores sociais que constroem esse processo. Devíamos ouvir mais quem faz e vive o funk, e talvez falar menos. Assim, poderíamos combater o etnocentrismo que nos cega e torna surdos.

REPORTAGEM ESPECIAL - Funk como Movimento Cultural: Fato ou invenção?

Rodrigo Machado

Entre em contato: rodrigonit86@hotmail.com

Se você fosse arriscar um palpite sobre o que seria o verdadeiro ritmo carioca qual seria: o samba ou funk? Pois é, hoje em dia, ninguém sabe mais responder! No entanto há uns 15 ou, talvez, 20 anos atrás a resposta  sairia naturalmente como o samba, é claro! O que mais representa a malandragem carioca, a melodia que vem da Lapa (bairro bohêmio do Rio de Janeiro), que consagrou inúmeros artistas, compositores e intérpretes.
Deputado Marcelo Freixo é autor da lei que reconhece o
funk comomovimento cultural. Crédito: Divulgação/ALERJ

Mas, dos anos 90 para cá, essa resposta não sai tão fácil assim. Outro som, que também eclodiu nas comunidades, passou a ecoar nas principais pistas de dança da cidade. Assim como o samba, o funk se firmou como o som que é a cara da Cidade Maravilhosa e rapidamente tornou-se conhecido em todo o Brasil.

A consagração do gênero deu-se no dia primeiro de Setembro de 2009. Na ocasião, os Deputados estaduais do Rio aprovaram o projeto de lei que definiu o funk como movimento cultural. Feito do Deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ), quem defende, com unhas e dentes, a manifestão popular dos funkeiros cariocas.

- Uma manifestação popular que envolve mais de um milhão de jovens por final de semana, não pode ser reprimida, do jeito que é, pela segurança pública. Negar a importância cultural dessa linguagem, dessa poesia, dessa música é negar o reconhecimento de cidadania e dignidade de uma parcela enorme da sociedade - afirmou o deputado.

Quem faz coro com Freixo é MC Leonardo, autor do hit "Rap das Armas", que estorou nas paradas de sucesso, nos anos 90, e voltou às rádios com força total após o lançamento do filme Tropa de Elite I, em 2007. Leonardo é hoje um dos líderes da APAFUNK (Associação de Profissionais e Amigos do Funk) e colunista da revista Caros Amigos. Para ele, o funk é muito mais do que simplesmente um movimento culural.
Relembre o "Rap das Armas", do MC Leonardo



- O funk, antes de cultural, é um veículo de comunicação dentros das comunidades. Quem está dentro da favela, não fala, não tem credibilidade para falar e não tem espaço. Os caras não tiveram educação. A cada cinquenta palavras, trinta são gírias e vinte são palavrões. Eles querem falar, eles tem direito e nisso o funk ajuda bastante - contou o MC. 

Doutora em Antropologia Social pela UFRJ, mestra em História Social da Cultura pela PUC e formada em História pela UFF, a professora Adriana Facina, da UFF também engajou-se na luta pelo reconhecimento do funk como cultura. 

Adriana, aliás, condena e lamenta quem é contra o genêro que reproduz a voz dos oprimidos na sociedade:

- O gosto é uma construção histórica e de classe. Os que hoje se ofendem com a batida do funk são herdeiros culturais dos senhores de escravos que temiam os batuques vindos de suas senzalas, pois eles demonstravam a autonomia e a potência dos que estavam no cativeiro - disse ao site Portal Literal.

Então, nós do blog Funk In Rio, fomos às ruas, ou melhor, em uma comunidade da Zona Norte de Niterói, para saber, de alguns moradores, se o funk é o verdadeiro ritmo carioca e se mereceu o título de movimento cultural:

 - Bom, realmente o funk pode ser o mais forte, o "popular", porém, prefiro que o samba represente melhor como ritmo carioca. O funk movimento cultural? Funk ? Não pra mim! Me diga um ponto positivo que o funk traz na vida de alguém? Nenhum, nada, zero - comentou Érika Araújo, moradora da comunidade da Riodades. 

 Já para Henrique, mais conhecido como Robinho da Riodades, o funk deu voz ativa e emprego para vários moradores do local.

- O funk, além de divertir a rapaziada, deu uma profissão a quem pensava entrar para o lado ruim, entende? É a nossa voz na sociedade. Só assim, eles (a população), sabem que nós existimos - decretou.

O que nos resta é opinar, diverigir e discutir o funk sem os velhos preconceitos e sem achar que os funkeiros são todos bandidos ou que são todos propagadores  de profanidade. Mas e você, o que acha desse movimento que já se espalhou pelo país e que até já se tornou popular em regiões como a Europa, por exemplo? Dê a sua opinião e participe do nosso blog!

REPORTAGEM ESPECIAL: Funk, um ritmo envolvente

Guilherme Souza
Entre em contato: guilhermesavilis@yahoo.com.br

A originalidade do funk fez com que o som tornasse a ser reconhecido como um ritmo. Muitos se perguntam se o funk escutado aqui no Brasil tem em comum com o funk original, estudiosos dizem que uma coisa não tem nada haver com a outra. 

 Esse funk que estamos acostumados a ouvir aqui no Brasil, mas precisamente no Rio de Janeiro, nos anos 70 eram realizados bailes, porém depois de algum tempo os DJs foram buscando novos ritmos e começou a ir além das festas, discotecas e passou a quebrar as barreiras nacionais e seguindo as internacionais. Nos anos 70 e 80 a maioria das músicas do funk carioca abordava temas sobre violência, a desigualdade, a pobreza, o cotidiano dos freqüentadores dos bailes, a vida das pessoas nas comunidades carentes.

Conheça os grandes nomes do funk nos anos 80


Na década de 90 o funk continua trazendo o cotidiano das comunidades carentes e como muita das vezes havia muita violência nos bailes, as músicas pediam a paz tanto nos bailes como nas comunidades, surgindo assim o funk melody com músicas mais melódicas e com temas românticos.

Relembre clássicos do funk da década de 90


Já nos anos 2000 foi a época que começou o “pancadão”, um ritmo envolvente com uma batida repetitiva, e vem com letras recheadas de pornografia, desvalorização da mulher, e letras de duplo sentido e nessa época o funk começou a ter sua decadência.


Bonde do Tigrão "Só as cachorras", sucessso do funk nos anos 2000 


O ritmo poderia trazer valores,ajudar na luta pelos preconceitos, tentar conscientizar boa parte da população. O que acontece agora é o contrário.

REPORTAGEM ESPECIAL: Funk é reconhecido como cultura popular

Sérgio de Melo
Entre em contato: serjr17@hotmail.com

Para grande parte da população o funk está sempre relacionado à música produzida nos morros cariocas. Embora difundido por todo país, no Brasil tornou-se quase que um produto do Rio de Janeiro. Hoje, as músicas mais tocadas nas emissoras e ouvidas pelo grande público são as que têm algum tipo de apelo sensual, feito através das letras e de coreografias. Mas o que é produzido de funk, atualmente, no Brasil? Quais são as vertentes desse segmento musical no país? Quem faz e onde é feito o funk? Qual é o papel desse estilo musical na sociedade?
Hermano Vianna é estudioso de cultura brasileira. Crédito: Divulgação

No Rio de Janeiro, o funk foi um desdobramento de um movimento chamado Black Rio que realizava bailes soul em toda a cidade, na periferia e também na zona sul, havendo uma transformação musical “lenta e gradual”. Nesse momento, já se tocava nos bailes o hip hop, que aos poucos substituiu o charme. “Com o sucesso internacional do hip hop a zona sul voltou a se interessar pela black music.

Para o sociólogo Hermano Vianna, diz que, além desta origem vinculada ao movimento realizado nos Estados Unidos, houve uma outra mistura de elemntos culturais para o formar o gênero musical:

- Também é preciso que se reconheça que o funk é o que chamamos de uma música diaspórica, ou seja, um tipo de música que nasceu nos EUA, mas que foi criada a partir do tráfico internacional de seres humanos, em sua maioria africanos, que também foram trazidos à força para o Brasil. Portanto, o blues, o funk, o samba, a capoeira, as religiões afro-brasileiras são manifestações culturais que têm origens históricas comuns, independente das fronteiras nacionais. Além disso, após mais de 30 anos de presença no Brasil, o funk se nacionalizou, inclusive na sua batida eletrônica, que vai samplear berimbaus, atabaques, tamborins, surdos etc - diz Vianna.

De acordo com Luciano, conhecido como MC Patrão, ele acredita que o funk hoje é uma forma de geração de renda:

- Ainda são poucos, mas existem artistas que conseguem viver disso - diz o MC.
“Patrão” ainda fala a respeito sobre o proibidão e o Funk sensual, vertente do funk que ele diz representar:

- O proibidão é uma vertente do funk que explora de forma exagerada e o temas da violência e do crime ou sexo , muitas vezes narrando, sem nenhum pudor, situações eróticas vividas ou desejadas pelos intérpretes.

MC Patrão é representante do funk que envolvem a sensualidade

Funk que toca nas rádios não é o proibidão, mas sim suas versões light. O que toca nas rádios hoje é basicamente o chamado funk sensual, de duplo sentido, lado mais explorado pela mídia hoje, em detrimento do chamado funk consciente, que era muito forte na década de 1990.

A existência do mundo funk carioca contraria em vários pontos as teses anteriores sobre o funcionamento da mídia no Brasil. O consumo de funk no Rio não pode de maneira alguma ser considerado uma imposição dos meios de comunicação de massa. Pelo contrário: parece até haver um complô dessas mídias com o objetivo de ignorar o fenômeno.

A existência do mundo funk no Rio é desconhecida pelas gravadoras que trabalham com esse tipo de música nos Estados Unidos (no caso excepcional de venderem discos para todas as equipes cariocas.Portanto, elas não acionam qualquer política de marketing visando seduzir o público carioca, coisa economicamente impossível para o tamanho dessas empresas.

O Funk enquanto expressão cultural se encontra inserido nesse contexto. Sendo assim, a presença do funk na vida da maioria dos jovens é tão marcante que alguns procedimentos vivenciados por eles em bailes deste gênero cultural são transportados para a sociedade, retratando a sua força simbólica

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O funk nos anos 2000

Sérgio de Melo
Entre em contato: serjr17@hotmail.com
A pressão da polícia, da imprensa e a criação de uma CPI na Assembléia do Rio Janeiro em 1999 e 2000 acabaram com a violência em grande parte dos bailes, ao mesmo tempo que as músicas se tornaram mais dançantes e as letras, mais sensuais. Esta nova fase do ritmo, descrita por alguns como o new funk, se tornou sucesso em todo o país e conquistou lugares antes dominados por outros ritmos, como o Carnaval baiano. A Furacão 2000 continua uma das principais equipes de som e produtoras do mercado até hoje.

Wagner Montes (PDT) é um dos autores do projeto de lei que
reconhece o funk como movimento cultural. Foto: Divulgação

Saindo das favelas em direção à cidade, o funk conseguiu mascarar seu ritmo, mostrando-se mais parecido com um rap americano e integrou-se um pouco mais as classes cariocas. Seu ritmo e sua batida repetitiva também contribuíram para que mais pessoas se tornassem adeptas dessa música, fazendo com que o estilo chegasse a movimentar milhões por mês no Estado do Rio.

O funk ganhou espaço fora do Rio e ganhou conhecimento internacional quando foi eleito umas das grandes sensações do verão europa de 2005 e ser base para um sucesso da cantora inglesa MIA, "Bucky Done Gun". Um dos destaques desta fase, e que foi objeto até de um documentário europeu sobre o tema é a cantora Tati Quebra-Barraco que se tornou uma figura emblemática das mulheres.
Esse mercado foi criado nas duas últimas décadas, sem ajuda da indústria cultural estabelecida, não existe outro exemplo tão claro de virada mercadológica na cultura pop contemporânea. O funk agora tem números claros, que mostram uma atividade econômica importante, que pode assim ser levado a sério pelo poder público.
Ouça os hits que agitaram os bailes funk a partir dos anos 2000


O estilo musical, embora apresente expansão mercadológica, ainda continua sendo alvo de muita resistência e preconceito, sendo bastante criticado por intelectuais e grande parte da população.

Em Setembro de 2009, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou projeto definindo o funk como movimento cultural e musical de caráter popular.

O projeto de lei aprovado assegura a realização de manifestações próprias relacionadas ao funk. De acordo com a norma, os assuntos relativos ao estilo musical devem ser prioritariamente da competência de secretarias ou outros órgãos ligados à cultura. A lei proíbe qualquer tipo de discriminação e preconceito contra o funk.

A partir de agora haverá um tratamento igualitário ao funk. A proposta deste projeto foi feita pelos deputados Marcelo Freixo (PSOL) e Wagner Montes (PDT). O funk deixa de ser tratado pela polícia para ser tratado pela cultura.

Os estereótipos na televisão: A participação de Valeska Popozuda no reality “A Fazenda 4”

Lilian Lila
Entre em contato: lilian.neto@live.com

Valeska teve participação discreta na  Fazenda 4

Considerada uma das maiores cantoras de funk do Brasil, Valeska Popozuda, de 33 anos, vocalista do grupo Gaiola das Popozudas, teve a chance de mostrar como realmente é sua personalidade fora dos palcos. Para muitos, Valeska é uma das cantoras que mais representa o funk brasileiro, sendo a principal figura que mostra como as mulheres funkeiras são ou deveriam ser. Ela teve a oportunidade de participar do reality “A Fazenda”, produzido pela Rede Record.


Pela sua personalidade nos palcos, os fãs e expectadores esperavam que Valeska fosse extravagante e escandalosa, como se mostra durante suas apresentações nos bailes. Mas, diferente disso, Valeska mostrou um lado mais sensível e calmo, surpreendendo a todos. Ela fez amizade com os integrantes da casa, chorou, se emocionou, teve um envolvimento de carinho com os animais da fazenda e procurou não brigar com nenhum dos participantes, além de ter tido um pequeno affair com o jogador Dinei, que também participava da edição.


Quem escuta as letras das músicas de Valeska, imagina que ela seja 24 horas por dia uma mulher promíscua. Suas canções possuem, em grande maioria, conteúdo erótico e suas danças são sempre provocativas, com muito rebolado. O conteúdo das músicas também tenta em algumas vezes mostrar um lado considerado, por muitos, feminista, por depreciar de certa forma a presença masculina, como se colocasse o “homem em seu lugar”.

 Valeska Popozuda esbanja sensualidade em "Solta esse Ponto"


Ao ser anunciado que a funkeira participaria do reality, muitas pessoas imaginaram que Valeska seria uma das maiores “barraqueiras” da competição, que seria uma personagem polêmica dentro do programa que reúne personalidades famosas. Ela preferiu se distanciar das confusões que aconteceram, mantendo uma postura mais imparcial.

Mas apesar de ter se mostrado uma pessoa tranqüila, Valeska não perdeu o rebolado, dançando muito nas festas, principalmente quando tocava funk.

A Fazenda 4: Valeska fala da experiência de se tornar mãe



Algumas interpretes do estilo musical já se auto-denominaram “cachorras”, para atribuir o apelido, que por muita gente é considerado um insulto à moral das mulheres, às suas atitudes, jeito de se vestir e a forma como lidam com os homens. Valeska é uma dessas cantoras que gostam de se exibirem e não tem nenhuma vergonha na hora de cantar e dançar ao som de músicas com esse conteúdo. Isso faz com que muita gente crie um estereótipo de que as funkeiras só possuem esse tipo de comportamento. No programa, Valeska quebrou esse pensamento, mostrando seu lado mais família, chegando a dar conselhos às amigas sobre como ser mãe e instinto materno, lembrando que ela tem um filho chamado Pablo.

E, geral, a dançarina evitou causar polêmica, manteve uma postura tranqüila, mas mas também mostrou que não é só o que mostra nos palcos, apesar de também mostrar essa personalidade mais extravagante de uma forma mais sutil e respeitosa com os outros participantes.

MC Patrão - Uma Paixão em Três Cores

Rodrigo Machado
Entre em contato: rodrigonit86@hotmail.com

MC Patrão faz questão de exautar seu amor pelo Fluminense
em encontro com Rei do Futebol.  Foto: Arquivo Pessoal
Você, torcedor do Fluminense, já deve ter ouvido, ou cantado, este refrão: "Sai da frente, tô passando é o fluzão a jato". Para os funkeiros tricolores de plantão, como não conhecer a música de Luciano Tavares? Pois é, este é o verdadeiro nome do MC Patrão, um cara que colocou que nomeou o próprio filho de Fluminense, ou melhor, Vitor Fluminense.

 No começo deste ano, devido ao sucesso do time das Laranjeiras em 2010 - no Campeonato Brasileiro -, e seguindo a linha dos demais funkeiros que criaram hits para Flamengo e Vasco, Patrão decidiu compor uma canção especialmente dedicada à Nação Tricolor.

Antes de mais nada, o rapper nascido e criado em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, se orgulha pelas tatuagens espalhadas pelo corpo em homenagem à paixão que veio do berço.

Conheça o "Fluzão a Jato", do MC Patrão

- Tenho três tatuagens do Fluminense, escudo no braço esquerdo, escudo no peito esquerdo, escudo na canela direita, vou fazer mais ainda este ano, me aguardem! - exclamou.

Mc Patrão e Mc Charles esquentam clássico entre Flu e Vasco


Depois que os flamenguistas começaram a exaltar o "Bonde do Mengão" e os vascaínos com o seu "Trem Bala da Colina", chegava a vez do tricolor ter o seu próprio funk. Daí surgiu a ideia de criar o "Fluzão a Jato".

- Temos que apoiar e incentivar o nosso time em todos os momentos, essa composição foi feita especialmente para levantar a moral dos nossos jogadores em momentos conturbados - contou.
Luciano também tornou-se famoso, em 2011, por outro motivo. Ele foi o torcedor-comentarista, do Fluminense, durante a participação do clube na Copa Santander Libertadores deste ano. Após os jogos do time na competição Sulamericana, Patrão dava os seus pitacos sobre a atuação da equipe nas transmissões da Band e, pela internet, através do portal Lancenet.com.

Com o Fluminense ainda na briga pelo bicampeonato brasileiro, Patrão quer agora que sua música decole, desta vez, com a conquista do Brasileirão.

- Quem sabe minha música não vire o hino de mais uma conquista do Fluzão. Haja coração, torcida tricolor - completou.

Em expansão, funk ganha espaço em áreas nobres do Rio de Janeiro

Osmar Dantas

Gringos dançam até o chão em baile no Clube Monte Líbano,
na Zona Sul do Rio. Foto: Eduarado Naddar (O Globo).
O funk carioca é um exemplo de ritmo musical que nasceu nas periferias e sofreu muitos preconceitos até atingir outros meios, como o rádio e a televisão,  ganhar público e ser reconhecido como movimento cultural, o que faz o movimento ganhar cada vez mais adeptos no Rio de Janeiro e em outras cidades do país.  Depois de conquistar o asfalto, não é que agora o movimento está expandindo para as áreas nobres da cidade, como em casas noturnas da Zona Sul e Barra da  Tijuca. Antes de ser valorizado, ritmos como o blues, o samba, o jazz e o rock também foram marginalizados e passaram por uma trajetória parecida com a do funk.

Durante muitos anos, o funk sofreu com a invisibilidade, no sentido de que muitos ignoravam sua existência, assim como muitos que levantam os vidros dos  carros ao ver um menos de idade fazendo malabarismos no sinal. Mas parece que agora o ritmo se transformou numa crista da onda. Algumas das principais  boates e casas de show da região nobre do Rio dedicam noite exclusivas ao ritmo.

O Dj Malboro é um dos nome mais respeitados da cena carioca e, desde que foi convidado a participar do Tim Festival, o funk agora ocupa lugar de destaque  na Zona Sul da cidade. Malboro é capaz de lotar um das mais tradicionais casas de shows do Rio, o Scala, no Leblon, e também o clube Monte Líbano, na  Lagoa, misturado com electro e hip hop. Hoje, o DJ frequentemente se apresenta fora do Rio, como no carnaval de Salvador e em vários locais do mundo, como  Portugal e Alemanha. Outros precursoeres e músicos do movimento estão seguindo a mesma trilha, com a tati Quebra Barraco, que também vem destonado fora do  país e tem cadeira cativa no no moderno clube Fosfobox, em Copacabana.

Com um olhar para o fururo, o ex-jogador de futebol e comentarista da rede Bandeirantes Edmundo está negociando a entrada no mercado da noite carioca e  empreendendo uma boate na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de janeiro, especializada em atender os apreciadores do funk. Nessa região da cidade, que vem  sofrendo grande crescimento e valorização, já funciona a todo vapor o Espaço Barra Show, casa de espetáculos em geral, mas que reserva algumas noites para  os amantes das batidas eletrônicas.

Furacão 2000: o exemplo que deu certo

A maior promotora de bailes e detentora melhores equipes de som é a Furacão 2000, com larga vantagem sobre os concorrentes. Os bailes da gravadora de  Rômulo Costa se fortaleceu junto com a inserção do funk no cenário musical. Com mais de 35 anos de existência, a equipe de som é uma das que mais atrai o  público jovem no estado do Rio de Janeiro. Hoje a Furacão 2000 conta com um programa de TV diário, transmitido de segunda a sexta, em um espaço alugado na  programação da rede Bandeirantes; uma rádio própria, a 107.1 FM, que tem programação funk 24 horas por dia, além de um programa na rádio FM O Dia (100,5  Mhz), que é líder de audiência no horário do dial carioca.

O empresário Rômulo Costa, ao lado de sua esposa, Priscila Nocetti, são encarregados, além de comandar a organização e apresentarem os programas de tv e  rádio, animam os mais de 40 bailes que a Furacão 2000 realiza por semana, atraindo um púbico de mais de 50 mil jovens. E a expansão dos negócios já atingiu  outras partes do Brasil,com shows realizados em São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais, Brasília, Recife e Fortaleza. Rômulo Costa atribiu o sucesso do  seus empreendimento à ascensão do próprio funk:

- O funk é o verdadeiro ritmo carioca. Aqui tudo acaba em funk. Toca funk em festas de aniversário, casamento, baile de formatura e não tem distinção de  classe social. Aconteceu assim como diz aquela música: É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado. E fomos pioneiros em tudo no  movimento do funk, assim como os primeiros bailes e os primeiros programas de rádio, conquistando a preferência dos jovens - explica o empresário.

Conheça um pouco mais sobre a carreira de Rômulo Costa

A solidez da empresa pode ser comprovada no mercado fonográfico, em que consegue um sucesso de vendas há decadas. A Furação 2000 possui uma dezena de  discos e DVD's gravados e é responsável por lançar diversos artistas no mercado. Foi através da aparição nestes DVD's que o Brasil ficou conhecendo, por  exemplo, o MC Créu, os Hawaianos, Jonathan Costa, Menor do Chapa e a Gaiola das Popozudas. Para o atual secretário de Cultura de Belford Roxo, Rômulo Costa  a empresa é um dos caminhos para se alcançar sucesso nesse meio:

- É um mercado muito terceirizado, onde a maioria é autônomo. Passar pela Furacão 2000 e, sem dúvidas, uma trajetória importantes dos Mc's para ser chegar  ao estrelato.

O pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, Jimmy Medeiros, que fez uma pesquisa sobre a cadeia produtiva do funk no Rio (hiperlink para primeira matéria da editoria), verificou que a importância econômica da Furacão 2000 no cenário musical:
- Eles (a Furação 2000) são uma das maiores equipes do som e as que mais lucram com o funk Rio de Janeiro. Muito dessa liderança se deve a organização da  empresa, especialmente no que se refere ao pagamento das cachês e no cumprimento das regras contratuais. Sem dúvida, a Furação 2000 é uma exemplo de que,  com  a formalização, o mercado pode expandir e alcançar voos cada vez mais altos - destaca.     

Governo do estado libera verba para investimentos no Funk

De olho na expansão e valorirazão do funk, o Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, anunciou um investimento para o setor em agosto deste ano. A  Secretaria de Estado de Cultura lançou um pacote de editais no valor de mais de R$ 40,9 milhões de reias para a cultura, destinados a projetos  entre 20111  e 2012. O pacote representa um aumento de 440% em comparação a 2008, quando a Secretaria começou sua política de editais. Desse total, cerca de R$500 mil  reias serão destinados ao desenvolvimento do funk nas periferias e áreas populares. É a primeiras vez que o Governo vai contemplar o movimento com os  editais para cultura.

A chamada pública para Criação Artística no Funk vai dar à juventude a oportunidade de produzir videoclipes, músicas, CD's e projetos de culturais como  literatura e a produção de documentários sobre o gênero. A verba vai beneficiar equipes de som, DJ’s, MC’s, dançarinos, grupos, bondes, educadores e  comunicadores que contribuam para a valorização do gênero enquanto expressão cultural urbana e plural no Rio de Janeiro. Os editias vão beneficiar 25  entidades selecionadas com cerca de R$ 20 mil em cada projeto.

O pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Jimmy Medeiros, que fez uma pesquisa sobre a cadeia produtiva do funk no Rio, considera o  investimento no movimento como um reconhecimento cultural e contribui para a desenvolvimento artístico do ritmo no estado:

- Esse investimento é importante, pois representa uma primeira política pública voltada para o setor. Os Estados (Governos) estão começando a entender que essa manisfestação precisa de uma formalização dos profissionais e recursos públicos para o aprimoramanto do movimento, justamente por ser um dos ritmos que tem a cara do Rio de Janeiro. É uma uma conquista para o movimento e os profissionais envolvidos.

E quando toca ninguém fica parado...

Guilherme Souza 

Depois de muito chão, bailes e amor ao funk, Marlboro chegou ao festival Summer Stage em junho de 2003, no Central Park, em Nova York, que lhe rendeu uma comentadíssima entrevista para o Manhattan Connection. Foi o primeiro DJ convidado a tocar na história do festival e sua passagem pelos Estados Unidos contou ainda com shows em Nova Jersey, Chicago e Boston. 

DJ Marlboro divulga o funk fora do Brasil. Foto: Divulgação
 Marlboro contabiliza na sua invejável bagagem a histórica apresentação no Festival Eletrónika de Belo Horizonte no mesmo ano. Atualmente, Marlboro comanda inúmeros bailes pelo Rio e apresenta o programa BIG MIX na rádio BEAT 98, de segunda a sexta, das 17h às 19h, e durante seis anos apresentou na FM O DIA, de segunda a sábado, das 16hs às 18hs e assinou uma coluna semanal para o jornal "O DIA" e ''Meia Hora", também é editor responsável pela revista mensal "Big Mix Magazine" . E além disso, lança os CDs dos grandes nomes do funk pela sua gravadora Link Records.

Não podemos deixar de citar que foi o primeiro Dj a participar, como residente, do programa da Xuxa, na TV Globo, participando, também, no filme " Despertar dos Anjos" nos clips de Nando Rosa, Gueto e Fernanda Abreu que ainda lhe presta homenagem na letra "Brasil País do Swing". Trabalhou como ator, representando o próprio, na série "Cidade dos Homens" – Fernando Meirelles- também na TV Globo. A sua participação no filme "Sonho de Verão"- Luciano Huck e Angélica direção de Diler Trindade – transformou o set de filmagem na, Ilha de Caras, em um grande baile funk. Tem sua trajetória registrada nos livros: "Cidade Partida" de Zuenir Ventura; "O Mundo Funk Carioca" de Hermano Viana; "Abalando os Anos 90" de Michel Herschmann. Já lançou dois livros: "Funk no Brasil – Por Ele Mesmo" e "Aventura do Dj Marlboro Pela Terra do Funk"

Anualmente promove eventos benificente cujas arrecadações são entregues aos carentes e instituições: "Baile do Material Escolar"; "Baile do Agasalho" e "Baile do Brinquedo" que este ano acontecerá na Ilha dos Pescadores dia 16 de dezembro.

Conheça um pouco da mixagem do DJ Marlboro


Depois de botar para dançar milhares de pessoas nos bailes espalhados pelo Rio , a maioria animados por sua equipe de som BIG MIX, o funk carioca com Dj Marlboro, enfim, conquistou seu lugar no mundo. As batidas graves foram a estrela maior do festival eletrônico Sonar, na Espanha em junho desse ano, ecoaram bonito no estacionamento da Selfridges, em Londres, durante a mostra, "Brasil 40 degrees", além de três turnês pelos Estados Unidos e passagens pela França, Inglaterra, Croácia e Eslovênia e Colômbia.
Essa redescoberta do Dj Marlboro, pela grande mídia e público em geral, teve início com sua apresentação no Tim Festival de 2003, um salto para as mais badaladas casas da moda e exterior.Chegou a vez de São Paulo reconhecer seu talento. Marlboro assumiu recentemente uma residência quinzenal no badalado clube Lov.E, agora semanalmente na Lucky, na capital paulista. 
Foi uma das principais atrações do Nokia Trends, versão brasileira do Sonar Sound Pioneiro da cultura do ritmo, Marlboro é finalmente tratado como merece, sendo reconhecido definitivamente como um dos papas da música eletrônica no Brasil e, a cada dia acumula novidades e surpresas no seu currículo como: se apresentar em casamento no Copacabana Palace; na inauguração da loja de Ocimar Versolato-Ipanema-; festas fechadas , comunidade judaica, participação no ensaio fotográfico do catálogo da coleção verão , das lojas SanPiper, além de ser o prefererido das faculdades para seus eventos.


As batidas do funk nas favelas e comunidades

Tiago de Andrade
Entre em contato: tiagoxgomes@hotmail.com


Há quem afirme que o Funk é mais do que música, que o considere um movimento cultural único, pois é capaz de fazer a ligação entre a favela e o asfalto. A idéia dessa ponte entre as diferentes classes sociais é fácil de perceber nos bailes de funk que acontecem nas comunidades.

Moradores encaram o funk como movimento de
representação das comunidades. Foto: Agência O Globo
O grande alvo de críticas e polêmicas da sociedade que mora no “asfalto” na realização destes bailes, além do livre comércio de bebidas alcoólicas e drogas e a exposição de armas de fogo, são as letras dos funks que incitam ao crime, ao uso de entorpecentes e o forte apelo sexual. Para o morador da comunidade do Salgueiro, em São Gonçalo, Alderson Mesquita, “o Funk é o retrato do que acontece ali, no ambiente em que se vive, na esquina de onde reside e o conteúdo das letras fazem referência a esta realidade, pois são elaboradas em razão de ser a referência de um povo que é esquecido pelo poder público e fica a mercê de um poder paralelo”.

Nas comunidades o Funk é visto como ritmo, cultura local, entretenimento e até oportunidade de trabalho, pois os moradores possuem diversos amigos que começaram se apresentando nos bailes locais e atualmente, com a explosão do ritmo pela cidade, são Mcs conhecidos que se sustentam com o dinheiro que recebem através das suas performances nas casas noturnas espalhadas pelo Rio de Janeiro. Para Alderson, a força de atração do funk está nas batidas, nas danças, no ambiente de sensualidade que estimula à paquera, na forte presença do público feminino, enfim na diversão.

Com a adesão do público de maior poder aquisitivo, o funk passou a ser considerado um movimento das multidões, deixando de ser apenas música de preto e favelado na opinião do funkeiro Alderson:

- O que mais tem em bailes de comunidade são adolescentes de classe média e alta. A maioria critica mais em qualquer festa quando toca, todos dançam.

Os bailes de comunidades estão em processo de extinção, pois uma das ações realizadas pelas UPPs – Unidades de Polícia Pacificadora é a proibição de bailes funk nos morros. O assunto é motivo de reclamação dos moradores da comunidade que como Alderson, questionam o porquê da proibição e a restrição ao funk:

- O baile funk aqui na comunidade é uma opção de lazer e também uma forma de diversão barata para as pessoas que não tem condições de freqüentar as casas noturnas. Porque as rodas de samba ou outros eventos não são proibidos? Porque o problema com o funk?

Em resumo, o cenário que se visualiza é de que o Funk representa muito mais que um ritmo musical para a população carente da sociedade, é a apresentação da cultura, a arte da comunidade, a possibilidade de ser reconhecido através das suas composições, e a forma de se integrar a sociedade.

Uma nova viagem pelo ritmo do funk

Jéssica Cunha
Entre em contato: jessicatavares7@gmail.com

E aí, todos preparados para viajar pelo ritmo do batidão novamente? Então, vamos lá...

O funk veio das comunidades, então ninguém melhor do que um morador que veio dessa raiz para passar sua visão. O nosso persoangem é o Alderson Mesquita. O Dj Marlboro realmente tem muita história pra contar, o cara tem um currículo tão grande que uma matéria pra ele é pouco. Sendo assim, hoje você via conferir um pouco mais da trajetória dele, que se tornou um fenômeno.

Apesar de tanta luta, o funk ainda sofre com o preconceito. Mas mesmo assim, o gênero tem ganhado espaço nas casas de show, mas não pense que estamos falando de Baixada. O funk está bombando é na Zona Sul, isso mesmo, o morro literalmente desceu para o asfalto e ta ganhando força.

E falando de futebol novamente, quem tá mandando no pedaço é o MC Patrão, que é Fluminense de coração e compôs uma música para incentivar a torcida tricolor. E claro uma das maiores potências do ramo não poderia deixar de ser citada: a Furacão 2000.

Aqui você vai conhecer um pouco mais sobre esse verdadeiro império. Finalmente chegamos aos anos 2000, quando o funk teve uma grande vitória: A Assembleia Legislativa do aprovou o projeto que estabelece o Funk carioca como patrimônio cultural do estado, que garante a livre manifestação e a proteção do movimento, além de prever punição contra formas de preconceito e discriminação. O projeto é de autoria do deputado Marcelo Freixo (PSOL), com colaboração dos deputados Paulo Melo (PMDB) e Wagner Montes (PDT).

Após ápice nos anos 80, funk entra em decadência e mergulha na criminalidade

Sérgio de Melo
Entre em contato: serjr17@hotmail.com

Depois de um crescimento franco na década de 80 e com letras carregadas de temática social, o funk entrou no universo do crime e da maginalidade no fim dos anos 90. Diante da situação de domínio armado da grande marioria das favelas e comunidades carentes  na época, formou-se um grande silêncio sobre o ritmo e compositores. O gênero continuou popular nas rádios comunitárias e piratas (algumas eram de controle das equipes de som) e agora tratam dos temas ligados aos grupos criminosos, como o Comando Vermelho, ADA e etc, servindo como inspiradores de combates entre traficantes e aviso sobre a troca de comando local,  o funk falava principalmente sobre as drogas, as armas, os comandos, muitas vezes convocando moradores de favelas a participar de atos de violência ou pregando o extermínio de inimigos.

"Proibidões" exaltam as facções que comandam as favelas

O funk sofreu uma descaracterização, trazia músicas erotizadas e batidas mais rápidas. Para muitos especialistas no assunto, o atual funk carioca não pode ser chamado de funk: é apenas uma derivação do Miami Bass. Nessa nova fase desfigurada, o ritmo transformou-se em atração comercial de gravadoras e televisões que exploram e vulgarizam a imagem da mulher, Em 1999, após graves denúncias de violência e pornografia descontrolada nos bailes funks, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro decidiu criar uma CPI apenas para investigar esse tipo de baile.

Embora, a comissão, tenha resultado em uma lei que regulamenta as festas, quase nada mudou. Mesmo assim, as denúncias, graves, geraram repercussão na sociedade e medo entre os pais e os freqüentadores das festas cariocas. Essa temática, caracterizada por músicas de letras sensuais, por vezes vulgares, que começou no final da década, ganhou força e teria seu principal momento ao longo dos anos 2000.

Funk e mídia: como o estilo é retratado atualmente nas novelas

Lilian Lila
Entre em contato: lilian.neto@live.com

Atriz Carol interpreta a funkeira Solange
 em "Fina Estampa". Foto: Divulgação. 
Vários estilos musicais já foram tratados nas novelas. Em algumas, podemos ver um núcleo direcionado a essa área, por exemplo, na trama "Senhora do Destino" havia personagens voltados à escola de samba, que desfilariam no carnaval; em "O Clone" tinha a dança de salão, onde os personagens se reuniam na gafieira para dançar.


Na atual novela do horário nobre da Globo, a personagem Solange é uma adolescente que tem o sonho de ser cantora de funk. Filha de um pai repressor e agressivo, ela foge diversas vezes para cantar e dançar em um baile. Ele recebe o apoio da mãe, que reconhece que a filha tem talento.

A jovem dança escondido em casa, utilizando roupas curtas e justas e não pensa em estudar para seguir a carreira. A personagem Solange levanta uma série de discussões, desde como o funk é retratado e como ele funciona na vida real.

Mas ter um personagem que gosta de viver no “ambiente funk” não é novidade nas novelas. A personagem Raissa, vivida por Mariana Ximenes, também freqüentava bailes funk, o que desagradava seus pais por considerarem perigoso e por serem de classe lata e considerarem o local inapropriado para uma pessoa da classe social deles.

Diferente de Solange, Raissa já era maior de idade e continuava indo aos bailes, mesmo a contragosto dos pais. Em uma dessas ocasiões, ela acaba caindo em uma armadilha preparada pelo rapaz com quem está saindo: é seqüestrada e seus pais atribuem o crime ao fato dela ter ido ao baile.

Em Fina Estampa, Solange sofre com preconceito do pai

Em “Fina Estampa”, Solange não passa por esse tipo de preconceito por já viver em um ambiente de classe baixa e ser aclamada pelas pessoas que escutam o seu som. Na trama, a personagem enfrenta a posição do pai e foge para cantar no baile. Com o decorrer da trama, o pai acaba aceitando o estilo da filha, percebendo que ela tem talento e decide ser seu empresário, apoiando a jovem a cantar e dançar nos bailes.

Nas duas novelas, o funk é mostrado como algo que não é convencional, mas ao mesmo tempo mostra o preconceito que existe em torno dele e como as pessoas que são retratadas se comportam nesse tipo de ambiente. Mostra também como as pessoas mudam em relação ao estilo funkeiro, perdem o preconceito quando vêem como realmente é o ambiente e começam a entender a realidade funkeira.

MC Rell vai de “Mengão Sem Freio”

Rodrigo Machado
Entre em contato: rodrigonit86@hotmail.com

Entre os acontecimentos mais marcantes do ano de 2011, para os cariocas, sem dúvida, está a notável campanha dos quatro grandes clubes da capital fluminense no Campeonato Brasileiro. Calma, o nosso assunto aqui é funk. Você deve estar se perguntando: o que o futebol tem a ver com isso? A resposta é simples: tudo!


O futebol do Rio de Janeiro "rompeu" com o samba e fechou com o funk, pelo menos neste ano. A união entre o esporte bretão e o funk vem dando o que falar na boca das quatro maiores torcidas da cidade maravilhosa.



Vascaíno, MC Rell criou música que embalou o Flamengo no Carioca de 2011. Crédito: Divulgação/ Funk Neurótico


Tudo começou com o funkeiro Guilherme Ferreira, mais conhecido como MC Rell, o autor do funk "Mengão sem freio", que embalou os gols do Flamengo ao longo de todo o primeiro semestre de 2011. Na ocasião, o time levou a melhor sobre os rivais e arrematou o título de campeão estadual.

Aliás, para a surpresa de todos, Rell, na verdade, sequer torce pelo rubro-negro. Dou um doce para quem descobrir o verdadeiro time do MC! Pois é, galera, o homem é vascaíno. Acreditem se quiser!
Por essa razão, ele admitiu que já perdeu muitas noites de sono por causa do maior rival.- No dia do gol do Pet (final do Estadual de 2001) eu falei: "Como eu odeio esse time". Mas hoje ele mudou a minha vida - relembrou.

Conheça o Bonde do Mengão sem Freio, do MC Rell e MC K9

E realmente mudou literalmente. Com o sucesso da música, Rell viu os pedidos de shows crescerem. E o coração, que não tinha espaço para o Flamengo, agora também bate em vermelho e preto.

- Eu assisti à final contra o Vasco e vibrei com o título do Mengão - confessou.Mas essa paixão platônica de carnaval não surgiu do nada.

A mãe do funkeiro é rubro-negra, assim como a esposa. Daí veio a inspiração! Coube ao pai a missão de influenciar na decisão da escolha pelo time da Colina.

- Na verdade, ninguém me pediu pra fazer a música. Um dia, estava assistindo ao "Globo Esporte" e vi uma entrevista do Deivid (atacante do Flamengo) dizendo que eles iam comemorar os gols com coreografias para a minha música. Fiquei muito feliz e foi assim que começou - contou.

Mas se engana quem pensa que o rapaz se incomoda com piadinhas do tipo: "Virou a casaca", dita pelos amigos de infância, pelo contrário. Rell quer mais é dinheiro no bolso e muito show na agenda.

- Antes, eu tinha uma média de seis shows por semana. Agora, tá bombando. Depois do Carnaval, todos os meus sábados ficaram ocupados, com até três apresentações em uma noite - revela.

Ele admitiu que, até pouco tempo antes de compor a canção, nunca havia imaginado fazer uma música de tanto sucesso entre os flamenguistas. Hoje, ele se vê obrigado a cantar até o hino do clube nos shows. E garante que sua relação com o clube da Gávea não vai parar por aí:

- Vem música nova em breve. Está na caneta. Falta passar para o papel. Aguardem! - garantiu o MC.

SEBRAE/RJ auxília profissionais do funk a sair da informalidade

Osmar Dantas

Depois de ganhar espaço junto a um público de mais de três milhões de  pessoas, um dos principais objetivos dos profissionais do funk é sair da informalidade.  Uma iniciativa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) está ajudando os profissionais da categoria, como músicos, eletricistas, Mc's, Dj's, entre  outros, a se tornarem empreendedores individuais.

MC Leonardo vibra com facilidade para formalização dos
profissionais do funk. Foto: Divulgação/Funk Brasil
Recentemente, técnicos da entidade se reuniram com cerca de 20 lideranças da Associação de  Profissionais e Amigos do Funk (Apa Funk) e assessorou os profissionais sobre as vantagens  da formalização, prestando informações sobre estratégias para facilitar a expansão dos  seus negócios. O Sebrae/RJ também está oferecendo um curso para que os funkeiros saibam as  obrigações que terão que cumprir e como deverão gerir o empreendimento.

A importância econômica do funk para o Rio é tamanha que, segundo pesquisa da FGV, a  cadeia produtiva do ritmo movimenta cerca de R$ 12 milhões por mês e ocupa 10 mil profissionais  somente na Região metropolitana do Rio de Janeiro.Para auxiliar nesse  processo de legalização, o SEBRAE/RJ lançou uma cartilha sobre empreendedorismo individual  com o objetivo de auxiliar os profissionais a otimizar o processo produtivo e,  conseqüentemente, aumentar o faturamento. Pelo documento, ainda é possível encontrar  informações sobre os benefícios fiscais de se registrar como empreendedor individual e as  regras para ingressar no sistema.

O presidente da Apa Funk, Leonardo Pereira Motta, o MC Leonardo, considera o funk um ritmo  que precisa ser valorizado:

- O funk é um movimento cultural que precisa estar no topo e ser respeitado - prega o  músico.

Segundo a coordenadora do Programa de Desenvolvimento do Empreendedorismo em Comunidades  Pacificadas do Sebrae-RJ, Carla Teixeira, embora os donos de equipamentos de som, os DJs e  os MCs sejam a parte mais visível de um baile, nos bastidores, existem dezenas de outras   profissionais que se beneficiam da atividade, como dançarinos, operadores de som e luz,  eletricistas, pintores de faixas, cabeleireiros, donos de bar, motoristas, quase todos na  informalidade.

- O setor é muito informal e sofre preconceito com isso. A formalização vai aumentar a  autoestima de quem trabalha com funk, já que eles poderão oferecer seus serviços para  grandes empresas e ter acesso a linhas de crédito - explica.

Inseridos na categoria de empreendedor individual, esses profissionais passam a ter  registro gratuito no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), o que permite o  pequeno empresário a emitir nota fiscal, oferecer serviços para grandes empresas, comprar  material diretamente de grandes fornecedores, evitando os atravessadores, e ter acesso a  linhas de crédito diferenciadas.

Além disso, os trabalhadores autônomos estão isentos do pagamento de tributos federais, como Imposto de Renda e Cofins (Contribuição  para o Financiamento da Seguridade Social),  e também passam a ter direito a benefícios  previdenciários, como aposentadoria. A formalização terá um custo que varia entre R$27 e  R$33 por mês em impostos e, pelas regras do sistema, mais de 400 atividades econômicas  estão contempladas pela medida.

Segundo MC Leonardo, ter acesso à Previdência Social é uma evolução significativa para  os profissionais que trabalham com o funk, pois grande parte das pessoas que vivem do funk  não tem nenhuma segurança financeira ou social.

- Muitos se acidentam e ficam em casa sem ganhar nada. Com a Previdência, isso muda, ressalta o MC Leonardo.

Só podem contar com esses benefícios os empreendedores individuais que faturam até R$ 36  mil por ano. Caso o ultrapasse esse faturamento, o empreeendedor passa a se enquadrar na  condição de Microempresa e deverá cumprir novas obrigações do Simples Nacional. Para obter  mais informações, basta acessar o Portal do Empreendedor http://www.portaldoempreendedor.gov.br/) e no Sebrae, que presta assessoria gratuita  através do telefone 0800 570 0800.

Marlboro, ele é o cara...

Guilherme Souza
Entre em contato: guilhermesavilis@yahoo.com.br

O DJ Marlboro é uma das referências do Funk no Brasil e um dos principais responsáveis por levar as batidas para fora do Brasil. Para que possamos conhecer um pouco mais sobre a sua trajetória, capaz de reunir multidões em busca de uma batida perfeita, conversamos com o ídolo, que nos falou de sua vida pessoal e profissional que, a todo o tempo, se confunde com a história do funk.

Guilherme: Como começou sua carreira como DJ?

Maldoboro: Quando comecei a freqüentar bailes e conhecer equipes de som, fiquei apaixonado pela profissão de DJ, antes até de me apaixonar por música, mas estava longe de saber o que ela significava. Quando o tempo estava bom eu ia a pé para o colégio para economizar dinheiro, assim quando chegasse o final de semana eu teria como ir trabalhar num baile (em Lagoinha, numa casa chamada New Saveiro, a partir de 1980).

Lá o cara me pagava em disco que vinha de fora porque ele era da Marinha Mercante. Então, minha família parou de me dar dinheiro para ir à escola, foi quando comecei a ir de bicicleta pro baile, que era muito longe. Eles desmontaram a bicicleta e eu tive que passar a ir a pé. Mas o cara do baile ficou com pena e começou a me dar o dinheiro da passagem. Uma luta danada!
Com anos de carreira, DJ Malboro é um dos principais responsáveis por levar as batidas para o exterior. Foto: Dvulgação
 Às vezes levava porrada do meu pai porque chegava de madrugada com os olhos vermelhos e ele pensava que eu estava fumando maconha. Logo eu que nem bebo, apanhava por causa do olho vermelho de tanto trabalhar. Minha família era contra eu ser DJ, porque achavam que isto não dava futuro. Só que o movimento foi crescendo, e foram surgindo programas de rádio que tocavam funk que eram sempre líderes de audiência, mas havia um desconhecimento total do movimento entre a galera que não era da periferia. No entanto, na periferia os bailes todos ficavam lotados!

 Guilherme: Na sua opinião, porque ainda existe preconceito contra o funk no Brasil? Seria porque "é som de preto, de favelado"? Neste caso, porque o samba, ou mesmo o hip hop, não enfrenta o mesmo tipo de perseguição hoje, visto que o funk já sofreu até perseguição policial? Aliás, este tipo de perseguição continua?


Maldoboro: O funk tá embutido no conceito do samba, o samba tá no hip hop, no conceito da MPB, então o funk tá em tudo! O funk é mais "preconceituado" do que preconceituoso. Se alguém fizer um electro lindo e maravilhoso, o funk vai se apropriar disto sim e com certeza vai fazer uma coisa nova daquilo ali. As pessoas tendem a ter uma opinião, de não gostar de algum estilo, por causa do artista.

Eu concordo quando as pessoas falam que não gostam de funk, apesar de muita gente não conhecer o suficiente para dizer isso. Só não concordo quando eles falam que nunca vão gostar! Peraí, pode ser que um dia eu conheça melhor o funk e vou gostar sim! É como o Raul Seixas falava: "eu prefiro ser esta metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo"... Tem letra que até hoje é proibida aqui no Rio e existem algumas leis que proíbem a realização dos bailes funk. Este ano mesmo teve uma festa junina na Cidade de Deus que pôde tocar de tudo, menos funk!

É engraçado, mas o Brasil é o único país do mundo onde Secretaria de Segurança cuida de cultura. Foi assim com a capoeira, com o samba... O Cartola hoje é um ídolo, mas na época dele ele era perseguido e foi até preso por ser sambista, sabia? As próprias raves também são exemplo disto. A polícia não dá conta de controlar as drogas e aí acha mais fácil controlar e proibir as raves do que controlar o tráfico. Eles pensam: "Proíbe esta p%^$# que é melhor"!
Guilherme: O que é o Big Mix?

 aldoboro: É uma marca minha, um programa de rádio, equipe de som, gravadora e estúdio, um complexo voltado para a música.


Guilherme: A sua primeira apresentação para um público de música eletrônica fora do Rio foi no festival Eletronika de Belo Horizonte, em maio de 2003. O que você pensou quando foi convidado e como foi a reação do público?


Maldoboro: Nossa, foi bom pra caramba tocar para aquele público! Muitas pessoas não conheciam e foi muito bom ver as pessoas gostando e curtindo. Com o funk é assim: ame ou odeie! As pessoas que odeiam não odeiam à toa, odeiam porque não entendem, mas acho que a galera naquele dia entendeu meu recado. Música é mensagem, nós somos bons ou maus decodificadores das mensagens que as músicas passam. Muitas vezes a mensagem de uma música não está na sua letra.

 Eu ouço Bach ou Beethoven, me emociono e não cantaram nada... A melodia é que me contagia, e quando eu escuto um batidão ou a bateria de uma escola de samba, aquilo lá me faz balançar, é contagiante o suíngue, o ritmo, então o funk tem mensagens que não estão contidas nas letras.

DJ Marlboro e Convidados em "Rap da Felicidade" no Nokia Trends 2004

Guilherme: Além da batida hipnotizante, o famoso "Pancadão", o  funk faz  sucesso por causa de suas letras. Você sentiu alguma diferença da receptividade do  público por causa da  barreira do idioma nas recentes turnês pelo exterior?


Maldoboro: Achei impressionante! Eu no exterior me vi fazendo baile em 1980 tocando aquelas músicas de novela e o pessoal chorava por causa da música. As meninas se emocionavam com as músicas, mesmo sem entender o inglês. Foi assim lá fora: o pessoal, mesmo sem entender o português, se emocionou. Tentando aprender as palavras, balbuciando as letras de funk. Na Inglaterra foi muito engraçado, eles cantavam os finais das frases : "... preto... favelado..." como a gente fazia aqui no Brasil nos bailes com o nosso "embromation", só que em português!

Na Eslovênia, já no segundo refrão eles estavam cantando a melô do Pavarotti! Conversando com os caras o porquê do funk estar fazendo tanto sucesso lá fora, a resposta mais bacana que ouvi foi que eles conhecem a força e a riqueza da música brasileira, que eles sempre se alimentaram da mistura do samba ou da bossa nova com as batidas da música eletrônica, mas sentiam que aquilo ainda não era a autêntica fusão da música eletrônica com o suíngue brasileiro, mas aí quando ouviram o funk pela primeira vez pensaram: "Caraca, é isto!"

Guilherme: Começam a aparecer no exterior coletâneas de funk carioca. Um mix do DJ Diplo (americano de New Jersey) já está à venda nos EUA (em http://www.hollertronix.com/v2/store) e na Europa, o DJ alemão Daniel Haaksman acaba de lançar um 12" com 4 músicas de funk carioca [incluindo duas faixas do Furacão 2000 (http://www.essayrecordings.com/releases/baile_funk.html) e anuncia para breve a compilação "Rio Baile Funk: Favela Booty Beats".

Você sabe dizer se os artistas brasileiros vem tendo seus direitos autorais respeitados nestes lançamentos? Será que não é chegada a hora do DJ Marlboro levar o funk direto da fonte para os gringos, em forma de disco?


Maldoboro: A gente tá autorizando algumas músicas para fora, já tem 4 coletâneas sendo lançadas. O DJ Diplo não tá pagando os direitos autorais, mas já entrei em contato com ele para parar com isto ou que ele peça autorização. O alemão tá OK. Existe ainda uma coletânea que será lançada em Londres, que pra mim vai ser a melhor, mas esqueci o nome em inglês. Lá vai estourar também. Até já tem um programa de rádio em Londres que só toca funk, inclusive foi lá que eu ganhei meu primeiro cachê por tocar um set numa rádio. Esto nunca me aconteceu aqui no Brasil, ser pago pra tocar em rádio!

Guilherme: Você consegue viver só da música? Além de atuar como DJ, o que mais você faz? Tem muita gente que consegue "viver do funk"?

Maldoboro: Graças a Deus agora eu consigo viver só de música. Quando eu comecei a ser DJ eu não fui para ganhar dinheiro, fui porque eu acreditava e tinha amor à música. Até aquele momento nenhum DJ que eu conhecia tinha conseguido alguma coisa. Eu decidi trabalhar com o funk e eu sabia que ia ter muita dificuldade. Teve uma época da minha vida que eu estava vendendo o almoço para comprar a janta, e as pessoas falavam: "Marlboro, pára de tocar funk, você tem talento, você foi campeão brasileiro, tem técnica, com esta música você não vai conseguir nenhuma casa pra tocar, não vai conseguir programa de rádio!"

Porém eu acreditei no que eu tava fazendo, fui lá e carreguei minha bandeira e agora estou mostrando pa a o resto do mundo também. [Marlboro foi campeão do primeiro campeonato de DJs realizado pela DMC no Brasil, em 1989]. Eu não podia largar minha bandeira. Primeiro porque muita gente precisa de mim, o funk tem um papel social importante para garotada, conheço gente que largou a arma praa cantar, praa se expressar, acho que a sociedade tem que ver estes meninos como heróis.

É melhor vê-los cantando com a voz desafinada e de modo esdrúxulo do que ver estes meninos com armas em punho, porque têm que levar o pão para dentro de casa, aí sim você ficaria incomodado. Eles se expressam da maneira que sabem, falam errado porque não tiveram oportunidade de estudar, você acha que eles gostam de falar errado? Antes de criticar o menino, deveriam bater palma para ele, pois com toda falta de cultura que ele teve, ele terá conseguindo se expressar e tentando sobreviver com o que ele está dizendo.

Guilherme: Você começa em agosto uma residência quinzenal no Lov.e em São Paulo. O que o público pode esperar do DJ Marlboro e seus convidados na principal casa de música eletrônica do país? E qual você acha que vai ser a receptividade do público paulista a esta "Embaixada do funk" na cidade?

Maldoboro: Eu quero sim mostrar meu trabalho pra galera de São Paulo, acho o Lov.e legal pra caramba, acho muito importante para as pessoas conhecerem meu trabalho. Mas também acho importante fazer um trabalho na periferia de São Paulo, a galera precisa do funk para fazer o papel social dele.

Guilherme: Que recado você gostaria de mandar para o público brasileiro que "torce o nariz" e diz que "funk carioca é tudo igual"?

Maldoboro: (Risos) Aqui no Rio funk não é só música, o funk gera emprego. Faz as pessoas pensarem, mudarem seus hábitos. O funk é o sussurro da cidade. Tem gente que fala: "O funk é muito comercial!" Mas se você conhece e gosta das coisas que ouve hoje é porquê um tempo atrás a música comercial te conquistou! Quando você não era DJ o que te levou a ser DJ? Só depois que você começa a gostar das músicas chamadas "comerciais" é que você vai pesquisar e trilhar o caminho que você quer seguir. Quem te conquistou primeiro foram as músicas comerciais, elas que estão na loja pra vender, se não for comercial não tá na loja, se não estiver na loja não vai vender, se ela não vender você vai perder informação, se não tiver informação, você não vai comprar, e se não comprar não vai formar a sua opinião, então música tem que vender! No mais é lavar os olhos do preconceito.

Tem gente que fala: "Mas o funk fala muita baixaria!" E as músicas de electro também não falam ? Em inglês, pode?  Falam também que o funk é tosco, não tem qualidade, mas eu falo o seguinte: a música africana influenciou inúmeras vertentes da música mundial, a África inspirou o mundo tocando tambor e cantando dialetos que ninguém conhecia, e vão dizer que aquilo é pobre, tosco e não tem qualidade?! Então o que eu faço tem no mínimo qualidade sonora, pode faltar qualidade musical. Eu posso não gostar de alguma coisa hoje, mas não posso dizer que nunca vou gostar, porque assim vou estar dizendo que estou "empacado", assinando que sou burro.