quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Marlboro, ele é o cara...

Guilherme Souza
Entre em contato: guilhermesavilis@yahoo.com.br

O DJ Marlboro é uma das referências do Funk no Brasil e um dos principais responsáveis por levar as batidas para fora do Brasil. Para que possamos conhecer um pouco mais sobre a sua trajetória, capaz de reunir multidões em busca de uma batida perfeita, conversamos com o ídolo, que nos falou de sua vida pessoal e profissional que, a todo o tempo, se confunde com a história do funk.

Guilherme: Como começou sua carreira como DJ?

Maldoboro: Quando comecei a freqüentar bailes e conhecer equipes de som, fiquei apaixonado pela profissão de DJ, antes até de me apaixonar por música, mas estava longe de saber o que ela significava. Quando o tempo estava bom eu ia a pé para o colégio para economizar dinheiro, assim quando chegasse o final de semana eu teria como ir trabalhar num baile (em Lagoinha, numa casa chamada New Saveiro, a partir de 1980).

Lá o cara me pagava em disco que vinha de fora porque ele era da Marinha Mercante. Então, minha família parou de me dar dinheiro para ir à escola, foi quando comecei a ir de bicicleta pro baile, que era muito longe. Eles desmontaram a bicicleta e eu tive que passar a ir a pé. Mas o cara do baile ficou com pena e começou a me dar o dinheiro da passagem. Uma luta danada!
Com anos de carreira, DJ Malboro é um dos principais responsáveis por levar as batidas para o exterior. Foto: Dvulgação
 Às vezes levava porrada do meu pai porque chegava de madrugada com os olhos vermelhos e ele pensava que eu estava fumando maconha. Logo eu que nem bebo, apanhava por causa do olho vermelho de tanto trabalhar. Minha família era contra eu ser DJ, porque achavam que isto não dava futuro. Só que o movimento foi crescendo, e foram surgindo programas de rádio que tocavam funk que eram sempre líderes de audiência, mas havia um desconhecimento total do movimento entre a galera que não era da periferia. No entanto, na periferia os bailes todos ficavam lotados!

 Guilherme: Na sua opinião, porque ainda existe preconceito contra o funk no Brasil? Seria porque "é som de preto, de favelado"? Neste caso, porque o samba, ou mesmo o hip hop, não enfrenta o mesmo tipo de perseguição hoje, visto que o funk já sofreu até perseguição policial? Aliás, este tipo de perseguição continua?


Maldoboro: O funk tá embutido no conceito do samba, o samba tá no hip hop, no conceito da MPB, então o funk tá em tudo! O funk é mais "preconceituado" do que preconceituoso. Se alguém fizer um electro lindo e maravilhoso, o funk vai se apropriar disto sim e com certeza vai fazer uma coisa nova daquilo ali. As pessoas tendem a ter uma opinião, de não gostar de algum estilo, por causa do artista.

Eu concordo quando as pessoas falam que não gostam de funk, apesar de muita gente não conhecer o suficiente para dizer isso. Só não concordo quando eles falam que nunca vão gostar! Peraí, pode ser que um dia eu conheça melhor o funk e vou gostar sim! É como o Raul Seixas falava: "eu prefiro ser esta metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo"... Tem letra que até hoje é proibida aqui no Rio e existem algumas leis que proíbem a realização dos bailes funk. Este ano mesmo teve uma festa junina na Cidade de Deus que pôde tocar de tudo, menos funk!

É engraçado, mas o Brasil é o único país do mundo onde Secretaria de Segurança cuida de cultura. Foi assim com a capoeira, com o samba... O Cartola hoje é um ídolo, mas na época dele ele era perseguido e foi até preso por ser sambista, sabia? As próprias raves também são exemplo disto. A polícia não dá conta de controlar as drogas e aí acha mais fácil controlar e proibir as raves do que controlar o tráfico. Eles pensam: "Proíbe esta p%^$# que é melhor"!
Guilherme: O que é o Big Mix?

 aldoboro: É uma marca minha, um programa de rádio, equipe de som, gravadora e estúdio, um complexo voltado para a música.


Guilherme: A sua primeira apresentação para um público de música eletrônica fora do Rio foi no festival Eletronika de Belo Horizonte, em maio de 2003. O que você pensou quando foi convidado e como foi a reação do público?


Maldoboro: Nossa, foi bom pra caramba tocar para aquele público! Muitas pessoas não conheciam e foi muito bom ver as pessoas gostando e curtindo. Com o funk é assim: ame ou odeie! As pessoas que odeiam não odeiam à toa, odeiam porque não entendem, mas acho que a galera naquele dia entendeu meu recado. Música é mensagem, nós somos bons ou maus decodificadores das mensagens que as músicas passam. Muitas vezes a mensagem de uma música não está na sua letra.

 Eu ouço Bach ou Beethoven, me emociono e não cantaram nada... A melodia é que me contagia, e quando eu escuto um batidão ou a bateria de uma escola de samba, aquilo lá me faz balançar, é contagiante o suíngue, o ritmo, então o funk tem mensagens que não estão contidas nas letras.

DJ Marlboro e Convidados em "Rap da Felicidade" no Nokia Trends 2004

Guilherme: Além da batida hipnotizante, o famoso "Pancadão", o  funk faz  sucesso por causa de suas letras. Você sentiu alguma diferença da receptividade do  público por causa da  barreira do idioma nas recentes turnês pelo exterior?


Maldoboro: Achei impressionante! Eu no exterior me vi fazendo baile em 1980 tocando aquelas músicas de novela e o pessoal chorava por causa da música. As meninas se emocionavam com as músicas, mesmo sem entender o inglês. Foi assim lá fora: o pessoal, mesmo sem entender o português, se emocionou. Tentando aprender as palavras, balbuciando as letras de funk. Na Inglaterra foi muito engraçado, eles cantavam os finais das frases : "... preto... favelado..." como a gente fazia aqui no Brasil nos bailes com o nosso "embromation", só que em português!

Na Eslovênia, já no segundo refrão eles estavam cantando a melô do Pavarotti! Conversando com os caras o porquê do funk estar fazendo tanto sucesso lá fora, a resposta mais bacana que ouvi foi que eles conhecem a força e a riqueza da música brasileira, que eles sempre se alimentaram da mistura do samba ou da bossa nova com as batidas da música eletrônica, mas sentiam que aquilo ainda não era a autêntica fusão da música eletrônica com o suíngue brasileiro, mas aí quando ouviram o funk pela primeira vez pensaram: "Caraca, é isto!"

Guilherme: Começam a aparecer no exterior coletâneas de funk carioca. Um mix do DJ Diplo (americano de New Jersey) já está à venda nos EUA (em http://www.hollertronix.com/v2/store) e na Europa, o DJ alemão Daniel Haaksman acaba de lançar um 12" com 4 músicas de funk carioca [incluindo duas faixas do Furacão 2000 (http://www.essayrecordings.com/releases/baile_funk.html) e anuncia para breve a compilação "Rio Baile Funk: Favela Booty Beats".

Você sabe dizer se os artistas brasileiros vem tendo seus direitos autorais respeitados nestes lançamentos? Será que não é chegada a hora do DJ Marlboro levar o funk direto da fonte para os gringos, em forma de disco?


Maldoboro: A gente tá autorizando algumas músicas para fora, já tem 4 coletâneas sendo lançadas. O DJ Diplo não tá pagando os direitos autorais, mas já entrei em contato com ele para parar com isto ou que ele peça autorização. O alemão tá OK. Existe ainda uma coletânea que será lançada em Londres, que pra mim vai ser a melhor, mas esqueci o nome em inglês. Lá vai estourar também. Até já tem um programa de rádio em Londres que só toca funk, inclusive foi lá que eu ganhei meu primeiro cachê por tocar um set numa rádio. Esto nunca me aconteceu aqui no Brasil, ser pago pra tocar em rádio!

Guilherme: Você consegue viver só da música? Além de atuar como DJ, o que mais você faz? Tem muita gente que consegue "viver do funk"?

Maldoboro: Graças a Deus agora eu consigo viver só de música. Quando eu comecei a ser DJ eu não fui para ganhar dinheiro, fui porque eu acreditava e tinha amor à música. Até aquele momento nenhum DJ que eu conhecia tinha conseguido alguma coisa. Eu decidi trabalhar com o funk e eu sabia que ia ter muita dificuldade. Teve uma época da minha vida que eu estava vendendo o almoço para comprar a janta, e as pessoas falavam: "Marlboro, pára de tocar funk, você tem talento, você foi campeão brasileiro, tem técnica, com esta música você não vai conseguir nenhuma casa pra tocar, não vai conseguir programa de rádio!"

Porém eu acreditei no que eu tava fazendo, fui lá e carreguei minha bandeira e agora estou mostrando pa a o resto do mundo também. [Marlboro foi campeão do primeiro campeonato de DJs realizado pela DMC no Brasil, em 1989]. Eu não podia largar minha bandeira. Primeiro porque muita gente precisa de mim, o funk tem um papel social importante para garotada, conheço gente que largou a arma praa cantar, praa se expressar, acho que a sociedade tem que ver estes meninos como heróis.

É melhor vê-los cantando com a voz desafinada e de modo esdrúxulo do que ver estes meninos com armas em punho, porque têm que levar o pão para dentro de casa, aí sim você ficaria incomodado. Eles se expressam da maneira que sabem, falam errado porque não tiveram oportunidade de estudar, você acha que eles gostam de falar errado? Antes de criticar o menino, deveriam bater palma para ele, pois com toda falta de cultura que ele teve, ele terá conseguindo se expressar e tentando sobreviver com o que ele está dizendo.

Guilherme: Você começa em agosto uma residência quinzenal no Lov.e em São Paulo. O que o público pode esperar do DJ Marlboro e seus convidados na principal casa de música eletrônica do país? E qual você acha que vai ser a receptividade do público paulista a esta "Embaixada do funk" na cidade?

Maldoboro: Eu quero sim mostrar meu trabalho pra galera de São Paulo, acho o Lov.e legal pra caramba, acho muito importante para as pessoas conhecerem meu trabalho. Mas também acho importante fazer um trabalho na periferia de São Paulo, a galera precisa do funk para fazer o papel social dele.

Guilherme: Que recado você gostaria de mandar para o público brasileiro que "torce o nariz" e diz que "funk carioca é tudo igual"?

Maldoboro: (Risos) Aqui no Rio funk não é só música, o funk gera emprego. Faz as pessoas pensarem, mudarem seus hábitos. O funk é o sussurro da cidade. Tem gente que fala: "O funk é muito comercial!" Mas se você conhece e gosta das coisas que ouve hoje é porquê um tempo atrás a música comercial te conquistou! Quando você não era DJ o que te levou a ser DJ? Só depois que você começa a gostar das músicas chamadas "comerciais" é que você vai pesquisar e trilhar o caminho que você quer seguir. Quem te conquistou primeiro foram as músicas comerciais, elas que estão na loja pra vender, se não for comercial não tá na loja, se não estiver na loja não vai vender, se ela não vender você vai perder informação, se não tiver informação, você não vai comprar, e se não comprar não vai formar a sua opinião, então música tem que vender! No mais é lavar os olhos do preconceito.

Tem gente que fala: "Mas o funk fala muita baixaria!" E as músicas de electro também não falam ? Em inglês, pode?  Falam também que o funk é tosco, não tem qualidade, mas eu falo o seguinte: a música africana influenciou inúmeras vertentes da música mundial, a África inspirou o mundo tocando tambor e cantando dialetos que ninguém conhecia, e vão dizer que aquilo é pobre, tosco e não tem qualidade?! Então o que eu faço tem no mínimo qualidade sonora, pode faltar qualidade musical. Eu posso não gostar de alguma coisa hoje, mas não posso dizer que nunca vou gostar, porque assim vou estar dizendo que estou "empacado", assinando que sou burro.

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